“A nicotina age no cérebro e altera o metabolismo dos neurônios. É a droga mais difícil de largar. Proíbo um adolescente com tuberculose de jogar fumaça nos pulmões. Ele entende, abandona a maconha, o crack, mas o cigarro não: “Pô, é mais difícil do que o crack, doutor”.

Qualquer um, sem exceção, largaria imediatamente se isso não lhe trouxesse sofrimento. Que ser humano encontra prazer na escravidão? Quem gosta de andar com hálito de cinzeiro, com a pele sem vitalidade; com o fôlego curto e de correr o risco de ficar impotente ou de ter um ataque cardíaco no almoço de domingo? Não vamos nos iludir, o fumante só não larga o cigarro por uma razão: não consegue. Não encontra forças para vencer a dependência. A síndrome de abstinência da droga desnorteia o coitado. Quando ela vem, a vida veste seu manto cinzento, e o corpo entra numa agitação crescente, implacável. Só quem já passou por isso sabe o que é.

Então basta a primeira tragada, e a felicidade torna-se possível outra vez. Mas por pouco tempo. Menos de uma hora depois, a abstinência cruza os braços à soleira da porta: “Vai fumar já ou quer que espere?”. O dia inteiro nesse tormento. A nicotina é vil, persistente, derrota pelo cansaço.” Dr. Drauzio Varella

Não quis escrever este texto em preto, pois lembra a cor dos nossos pulmões de (ex-)fumantes; nem em cinza, prá não lembrar a cor do manto que a vida veste quando a abstinência ataca; nem em branco, prá não lembrar Albino Souza Cruz que, de albino, só levou para o caixão sua pele branca, seus pulmões sadios, pois NUNCA FUMOU. No azul, deixou a conta bancária do seu império, que nunca esteve no vermelho, graças a nós que, enganados pelo prazer que as primeiras tragadas nos proporcionaram, fizemos a indústria do tabaco enriquecer e escurecemos nossos pulmões, empalidecemos e envelhecemos nossa pele precocemente.

Numa manhã de Novembro, de céu azul e sol dourado, eu estava na sala de aula, com o coração partido nos meus 19 anos, sem conseguir me concentrar no que precisava aprender dali para a frente. Eram 09:15 da manhã, quando a secretária da escola pediu licença ao professor, interrompeu a aula e falou meu nome completo em tom alarmante. Eu precisava ir embora. Meu pai estava morrendo no hospital.

Um homem bonito, de porte altivo, meigo, doce, simpático, afável, calmo, amigo, companheiro, meu ídolo como homem, como pai, como esposo, como sogro, como irmão, como tio, como filho,

Ele se foi com 56 anos de idade e eu aprendi com ele muitas lições. Menos uma que ele insistiu em me ensinar e eu, na rebeldia da juventude, me recusei a assimilar: “NÃO FUME, minha filha; não prejudique sua saúde, te amo e só falo para o seu bem”.

Mas, infelizmente, ele havia sido tragado pelo cigarro e não tinha o exemplo de não fumante prá me passar. Tinha sim, sabedoria; talvez até previsse seu fim doloroso e demorado quando me alertou, ainda são.

Não o ouvi e prossegui minha vida, como que na ignorância, como que pensando “não vai acontecer comigo”. Mas como não??? Já havia acontecido: o cigarro já havia roubado meu pai. Só não tive consciência e maturidade prá compreender.

Todos nós sabemos de alguém, ouvimos falar, vemos, lemos, mas não nos convencemos de que o cigarro mata. Simplesmente porque ainda não aconteceu conosco pessoalmente. Mas quem é a droga? Nós ou o cigarro? Precisamos começar a morrer nós mesmos prá tentarmos nos salvar quando talvez já não haja mais tempo?

Quando se fala que o cigarro mata, muitos rebatem com o argumento: “posso ser atropelado, sofrer um acidente de carro, ser atingido por uma bala perdida”. Ou: “fulano teve isto ou aquilo, morreu e…não fumava”.

É certo, todos vamos morrer de uma forma ou de outra. Mas muito melhor será não morrer por algo que nós próprios nos causamos, por irresponsabilidade, fraqueza, desinformação, falta de amor próprio.

Quando conhecemos ou sabemos de alguém que comete suicídio, logo pensamos: “coitado, não teve forças prá enfrentar os problemas!”. Ou então: “é preciso ter coragem prá fazer isto”.

Enquanto fumamos provamos o quanto não temos forças prá lutar contra o vício. Ou o quanto somos corajosos por nos matarmos um pouco a cada tragada. A mesma fraqueza e/ou coragem do suicida.

O Sr. Albino Souza Cruz, um homem que não conheci e que nunca pode me dar um conselho, morreu sem nunca ter fumado. Apenas deixou para o país onde se radicou, uma empresa lucrativa, que gera empregos, produz e incrementa o PIB brasileiro.

“Certamente as indústrias do tabaco são muito importantes para o PIB brasileiro e para gerar empregos, porém, os gastos que o governo tem com a saúde pública para tratar os fumantes são muito maiores.”(1)

Já, meu pai, um homem com quem convivi por 19 anos, fumante inveterado, que conhecia tudo sobre minha vida, que me gerou e contribuiu diariamente para a indústria do tabaco, me alertou com amor, mas suas palavras só fazem algum sentido agora, quando tenho 54 anos de idade.

Espero que tenha parado a tempo. Que o eco da sua voz tenha ressoado e ficado gravado na minha memória prá sempre, prá que eu não fraqueje, não recaia, não fracasse, não me entregue, não me mate.

Não sei de que forma morrerei, mas não quero ser a principal responsável por isso.

Sei o quanto é difícil parar de fumar, pois tenho vivido isto há dois meses. É pouquíssimo tempo ainda. Sou apenas uma aprendiz como ex-fumante. Mas se pensar que já controlei minha vontade por mais de 60 dias, posso dizer: é possível.

Se não for por determinação e força de vontade, àqueles que acham que não conseguem, eu digo: procurem ajuda, consultem um médico, tentem.

“Custa experimentar? Afinal, um mínimo de brio ainda lhe resta. Vai morrer sem tentar?”(2)

Dirijo este texto aos que pretendem tentar, pois os que não pretendem não o lerão.Rasgue a cortina da fumaça e não permita mais que o manto cinzento da abstinência apague a luz da sua decisão. LIBERTE-SE.

Solange Simão (Membro do blog “Eu Vou Parar de Fumar”)

* Este texto marca o início da participação de membros convidados a escrever aqui no Blog “Eu vou parar de fumar”.

Fontes:

01: Publicação em PDF

02: Site do Dr. Dráuzio Varella

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