Novo post de nossa amiga Solange Simão .

Há 40 anos, quando comecei a fumar, meu organismo sequer conhecia o gosto de uma tragada, o cheiro que o cigarro deixaria nas minhas mãos, nos meus cabelos, na minha pele.

Meus pulmões eram limpos, rosados. Minha respiração era livre e eu também.

Eu não sabia o que era uma vontade absurda de fumar, pois nunca havia experimentado.

Após a experiência física bastante desagradável (detestei o sabor, engasguei, tive tontura), meu lado psicológico me levou a tentar outra vez, e mais outra, e mais outra.

E assim, meu organismo não só se habituou como começou a pedir aquelas substâncias, depois de um determinado período sem absorvê-las.

Além de satisfazer meu lado psicológico, o físico já exigia que eu fumasse e comecei a sofrer as crises de abstinência quando ficava por algumas horas sem o cigarro.

Isto deixa claro que conhecemos os sintomas da abstinência a partir do momento em que nos tornamos fumantes, e não a partir do momento em que paramos de fumar.

Se eu nunca tivesse experimentado, não saberia o que esses sintomas significam e a representação que eles têm.

Por conhecer o incômodo que me causava a ausência do cigarro, sempre tendo que procurar por mais um depois de algumas horas sem fumar, é que permaneci fumando e fui, aos poucos, encurtando o período entre um cigarro e outro.

Simplesmente porque queria interromper as sensações desagradáveis que o fato de não fumar me causava:  salivação excessiva, agitação, falta de concentração, irritabilidade.  E estas sensações eu só conheci por ter aprendido a fumar.

Hoje ouço inúmeras pessoas afirmando ou se perguntando: “tenho medo de não conseguir”; “tenho medo de recair”; “como vou reagir quando a vontade vier?”, “como vou conseguir controlar a vontade?”; “até quando vou sentir vontade?”.

Ainda há quem utilize medicamentos ou reposição de nicotina (adesivos, gomas de mascar, pastilhas) e tenha essas dúvidas: “como vou me controlar sem o adesivo?”;  “e quando o medicamento terminar, como vou me controlar sozinho(a)?”

Esses temores não nos servem de nada. Apenas nos impedem de enxergar e compreender a realidade. Potencializamos a ação do vício sobre nós e subestimamos nossa capacidade de combatê-lo.

Se pensarmos que, como escrevi no início, antes de fumarmos não conhecíamos os sintomas da abstinência, chegaremos à conclusão lógica de que o cigarro nunca nos acalmou.  Dizer: “eu fumo porque me sinto relaxado(a)” é um grande engano.  Se fumarmos dois cigarros seguidos e medirmos nossos batimentos cardíacos antes e depois de fumar, nos daremos conta de que o número de pulsações aumenta consideravelmente.  E isto não é relaxar.

A partir do momento em que nos tornamos viciados, a agitação e o stress por ficarmos algumas horas sem fumar são tão intensos (e com a continuidade do vício só tendem a aumentar), que o ato de fumar e sentir-se aliviado nos faz pensar, enganosamente, que o cigarro nos causou a sensação de alívio,  E, na verdade, é ele que nos deixa agitados e irritadiços, provocando a necessidade de um próximo cigarro.

Ao nos tornarmos fumantes, começamos com poucos cigarros. Ninguém consome, no início,  20, 30 ou 40 cigarros diariamente. Esse número aumenta gradualmente de acordo com a fome do monstro que permitimos residir em nós.

Ele sempre pedirá mais e nós, na ânsia de libertarmo-nos do desconforto, o saciamos.

Comecei fumando 2 cigarros por dia.  Em 5 dias já fumava 3 ou 4. Na 2ª semana já contava uns 6.  E por aí fui criando e alimentando meu monstro.

Hoje ele está adormecido.  Não posso, não quero e não devo despertá-lo.  Por isto,  tenho o máximo cuidado.

Para fazê-lo adormecer, apenas pedi que me respondesse:

“O que você me deu durante nossos 37 anos de convivência?”.

Se me convencesse de que me deu algo bom, eu continuaria sua companheira.  Mas ele não teve resposta.

E assim, não terá para qualquer outro fumante que lhe faça a mesma pergunta.

Em suma, o cigarro não nos dá absolutamente nada.  Apenas nos toma: a paz, a liberdade, o dinheiro e a saúde.

Você vai continuar pagando?

Por  Solange Simão

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