Continuando com a série de entrevistas com os membros de nossa comunidade, trazemos hoje, a Solange Simão que é uma de nossas colaboradoras mais ativas e uma amiga atenciosíssima. Essa é uma oportunidade de conhecermos melhor os membros aqui do “Eu vou parar de fumar”. Espero que gostem da entrevista.

Trecho do comentário da Solange no “Diario do leitor - escrito em em 31/01/2009: “(…)Hoje completo 14 dias sem fumar. Graça, a Lucy Ana tem muita razão no que diz, quando fala em jogar fora o cigarro que temos em casa. Foi assim, também, comigo. Eu sempre falava: esse é o último. Mas como tinha o maço em casa, mesmo que eu o escondesse num lugar bem difícil de pegar, eu fazia meus malabarismos, pegava a escada, subia no armário, mas alcaçava o danado de novo e… fumava.(…)”

1. Em seu perfil vc diz que começou a fumar aos 17 anos. Qual foi, na sua opinão; a principal influência para começar a fumar?

Nos anos 60 e 70, fumar era moda, era bonito. O jovem que não fumasse “estava por fora”, era “quadrado”. Ninguém queria ser rotulado assim. No colégio, nos bailinhos, nas domingueiras (coisas da minha época de adolescência - são as “baladas” de hoje), a maioria fumava. Eu tinha uma “AMIGA”, se é que se pode chamar assim, que foi meu empurrão para o vício no cigarro. Ela me fez experimentar. Achei horrível. Me lembro que tive que sentar imediatamente, pois senti tontura. Além disto, o gosto era muito ruim. Mas, infelizmente, foi tudo muito rápido. No dia seguinte eu quis tentar de novo. E no outro dia também. Até que, rapidamente, eu já não conseguia ficar um dia sem aquelas baforadas. Achava estranha minha falta de controle sobre minha vontade. Mas é assim mesmo, até o fim dos tempos, quando decidimos parar. Basta se acostumar para ficar difícil largar. A principal influência são as companhias, fumantes na família e falta de opinião. Quando jovens somos muito influenciáveis, infelizmente.

2. Você disse que já tentou parar de fumar por 3 vezes. Em seus comentários no blog, você disse certa vez, que tentou usar adesivos de nicotina e não deram certo com você. O que não deu certo? Qual foi o principal motivo para não usá-los novamente?

Na minha opinião qualquer medicamento pode ser eficiente, mas hoje sei que a nossa decisão e força de vontade são os fatores principais no processo de cessação do tabagismo. Por melhor e mais caro que seja o método, ele é apenas um coadjuvante. Não vai agir sozinho e nem fazer milagres. Tudo depende, primeiramente, de nós mesmos.

Os adesivos não deram certo, não por serem ineficazes, pois ajudam bastante, mas me causaram efeitos desconfortáveis. Após colocá-los tinha uma coceira muito incômoda no local, que durava uns 5 minutos. Meu sono ficou muito agitado. Eu tinha pesadelos e sonhos confusos. Pensei que fosse impressão minha, até que os recomendei para uma amiga de minha irmã, que também queria parar de fumar, e não comentei sobre os efeitos. Após ela fazer a experiência, pediu à minha irmã que me perguntasse se eu tinha pesadelos. Então pude perceber que não era só em mim que esses efeitos ocorriam. Assim, desta vez, decidi excluí-los das minhas alternativas.

3. Você disse em seu perfil que fez uso de medicamentos alternativos para deixar de fumar, como acumpuntura, auriculoterapia, lobélia, etc. Você acha estas terapias mais eficientes que os métodos tradiconais? Por quê? Ainda continua utilizando alguma? Qual?

Acho que todos os métodos e medicamentos podem ajudar. Mas é isto: apenas ajudam; não operam milagres. Eu não queria ajuda química, pois pretendia me desintoxicar e não me tornar dependente, talvez, de outra droga.

Fui somente a 2 sessões de acupuntura e auriculoterapia. Devem ter me ajudado, é claro, mas eu estava tão convencida de que queria ser ex-fumante que percebi que, apesar do apoio dessas terapias, se eu não exercitasse minha força de vontade e não aprendesse a dizer NÃO à minha fraqueza para o cigarro, nada, nenhum dinheiro, nenhuma pessoa, nenhum remédio, nenhum método seria eficiente sozinho. Assim, não tenho mais seguido fielmente qualquer um deles. Aprendi que EU tenho mais poder do que eles, tanto para fraquejar (por isto fui fumante por 37 anos), como para sair vitoriosa da situação e me despedir do cigarro ainda viva.

“Diario do leitor” em 29/01/2009 às 9:14 “Elizangela, linda. Que tal a gente ir agora até a geladeira, pegar um copo de água gelada, dar uns goles bem lentamente? Depois fechar os olhos, respirar bem fundo pelo nariz e soltar o ar pela boca 3 vezes. Pensar em Deus. Depois disto, você que pode, vá até sua mãezinha e dê um beijo nela. Vai adoçar a sua boca e o desejo do cigarro vai sumir, você vai ver. Vamos lá? Prá geladeira? 1, 2, 3 e já… Beijos e força.” 4. Este comentário é uma amostra de como você controla as fissuras? Quais são suas principais “armas” contra a fissura de fumar?

O que faço hoje é mastigar os cristais de gengibre, tomar bastante água (preferencialmente gelada), fazer exercícios respiratórios e, antes de qualquer dessas coisas, ter fé em Deus. Ele sim, nos ajuda. Quando bate aquela vontade louca, procuro me ocupar com outra coisa, dou uma volta no quarteirão, saio com meu cachorrinho, rezo, exercito a respiração. Uma coisa é certa: a vontade passa, como tudo.

Tenho tentado transmitir força para esses amigos queridos que fiz no blog, que chamo de “A Casa da Gláucia”, onde me sinto à vontade, como se estivéssemos todos reunidos numa sala, batendo papo, trocando experiências. Percebi que tentando ajudar alguém, a primeira pessoa a usufruir dessa ajuda sou eu mesma.

5. Vamos nos lembrar um pouco de quando você fumava. Qtos cigarros por dia? Fumava em casa? Que horário fumava mais? Qual era o “melhor” cigarro do dia?

Essa lembrança é um pouco melancólica. Sabe? Eu sentia prazer em fumar. É claro que muitos cigarros não eram percebidos assim, pois faziam parte apenas do vício. Eu fumava 20 por dia; posso dizer que 6 deles eram prazerosos.

Hoje, nas empresas, não se pode mais fumar. É preciso sair, ir para o “fumódromo”. O fato de ficarmos proibidos de fazer alguma coisa, seja o que for, nos leva às nuvens quando ficamos liberados para fazê-la. Acho que somos todos assim. Então, acredito que aqueles 6 cigarros do dia me davam tanto prazer simplesmente por eu ter ficado impedida de fumar por 3 ou 4 horas. É isto. Tanto que o melhor cigarro, prá mim, era aquele após o café da manhã, quando eu estava “limpa” há aproximadamente 7 horas, pois enquanto eu dormia não fumava.

Eu fumava em casa, sim, e mais à noite. Durante o dia estava trabalhando é só fumava 5 cigarros (exatamente aqueles que me davam mais prazer, além do 1º, após o café da manhã).

6. Sabemos que você tem um cãozinho chamado Pipo. Se você soubesse que os mesmos malefícios que tabagismo passivo causam aos seres humanos se aplicam aos animais domésticos, isso faria você parar de fumar em casa quando ainda era fumante?

Eu sempre pensei nisto e sei que prejudiquei o Pipo, mas o vício foi mais forte do que o bom senso. Eu poderia ter reduzido sua exposição ao cigarro mas meu ex-marido também fumava em casa. Quando nos separamos comecei a não fumar no quarto (hoje nem consigo acreditar que eu fazia isto). Assim fui diminuindo a quantidade de cigarros que eu fumava em casa.

Sempre respeitei os não fumantes, os lugares públicos, pois acho que ninguém é obrigado a ser “fumante passivo”. Mas como minha casa é “meu” espaço, eu me via à vontade dentro dela. Hoje percebo que dentro dela eu era prisioneira do cigarro e prejudicava seres que eu amo: minhas irmãs (todas ex-fumantes há muito tempo), meus cunhados, meus sobrinhos, meu Pipo.

7. Qual foi o principal motivo para você querer parar de fumar?

Da mesma forma que quando eu tinha meus 17 anos achava lindo alguém fumar, não queria “ficar por fora” nem ser “quadrada”, e encontrei aquela AMIGA(?) que me apresentou ao cigarro, hoje acho feio alguém fumar, o cigarro caiu da moda. É ele que “está por fora” e se tornou “quadrado”. Hoje encontrei uma outra AMIGA: minha própria consciência. Esta sim, merece ser chamada assim. Comecei a ter inveja das pessoas que me diziam “parei de fumar”. Decidi, como quando eu era adolescente, imitá-las. Minha família toda parou de fumar já faz tempo. Não quis ser a única fraca.

8. Você leu recentemente algum livro sobre tabagismo? Qual livro e autor e o que achou? Quais as principais dicas ou recomendações que encontrou no livro que você indicaria a quem está parando de fumar?

Li “O Método Fácil de Parar de Fumar, de Allen Carr”, que foi sugerido aqui, na “Casa da Gláucia”. Quando li eu já havia parado fazia uns 5 dias. Fiquei esperando um milagre. Esperei que minhas fissuras acabassem em 2 semanas. Queria chegar ao fim do livro para que o autor revelasse logo qual era o segredo.

A leitura é muito interessante e me fez acreditar mais ainda que nenhum fator externo é capaz de fazer uma pessoa parar de fumar. E o Dr. Allen Carr cita muito isto. Nós mesmos somos o principal estímulo prá que isto aconteça. Está em nós, na maneira como vamos trabalhar a decisão de darmos um basta ao vício.

Ainda sou uma iniciante como ex-fumante. Tenho meus momentos de fissura e também preciso de ajuda prá me manter firme. Mas uma frase que sempre falo prá mim mesma é: EU NÃO PRECISO FUMAR. Preciso tomar água, comer, trabalhar, andar, tomar banho, falar, respirar, etc… Fumar eu não preciso.

9. Vamos falar um pouco do Blog “Eu vou parar de fumar”. Como você encontrou o blog? O que é o melhor e o que falta no blog? O que vocẽ não gosta de jeito nenhum e gostaria que mudasse?

O blog é minha sala de estar, onde sento no sofá, estico as pernas, coloco uma boa música, tomo um bom vinho, bato papo com os amigos. Na minha ânsia de me tornar ex-fumante fui navegando pela internet, no Google, à procura de um empurrão inicial, em busca de gente que me desse a mão e não me cobrasse caso eu fraquejasse. Encontrei alguns espaços porém, nenhum tão ativo, nem tão acolhedor. Não encontrei o anfitrião(ã) como aqui na “Casa da Gláucia”, que a dona vem à porta receber seus convidados e se preocupa prá que todos estejam bem acomodados.

Prá mim, no Blog, esse contato diário com todos é muito bom, me estimula, me dá coragem e me mostrou que não é preciso ver a cara das pessoas prá gostar delas. Não há nada que eu desgoste, sinceramente. Só uma sugestão: poderíamos ter uma chamada, lá no alto da página com os aniversários dos membros. Aniversários de nascimento e aniversários como ex-fumantes. Por exemplo, no dia 09 de Abril, logo no topo da página, poderia ter Aniversariante do Dia: Gláucia Carvalho; no mesmo dia, se houver algum membro completando aniversário ou “mesário” como ex-fumante, Membro homenageado: João (1 mês sem cigarro). É apenas sugestão

10. Você acredita que um trabalho como este realizado aqui no blog ajude as pessoas realmente a ficarem longe do cigarro? Por quê ?

Acredito muito no seu trabalho, Gláucia. Seu, do Jeffry e de quem mais colaborar com vocês. Sua iniciativa foi grandiosa. Você não só conseguiu vencer o tabagismo, como quis compartilhar os benefícios disto com todos, sem distinção de raça, cor, religião, partido político, nível social ou econômico. Vocês não criaram algo prá lucrar financeiramente. Vocês se satisfazem com o lucro emocional, com a vitória de todos. E não medem esforços prá isto. Trabalham até tarde, viram madrugada, sem nada em troca. Apenas querendo ajudar e assistindo às conquistas de cada um, dia a dia.

É fundamental para cada “pretendente à qualificação como ex-fumante” encontrar espaços como este, onde há solidariedade, onde a gente percebe que não está sozinho enfrentando o monstro da fraqueza, das crises de abstinência, das tentações que podem nos fazer recair. Aqui somos abraçados todos os dias, mesmo que tenhamos fraquejado. Somos acolhidos novamente e levados a começar novamente, sem desânimo, sem medo.

Se cada um tiver determinação e plena consciência de que quer parar de fumar, pode entrar aqui, na “Casa da Gláucia” e dizer com todas as letras “EU VOU PARAR DE FUMAR”. Vocês, depois do nosso Pai, foram meus instrutores, meus amigos, meus exemplos.

11. Você parou de fumar no dia 17/01/2009. Portanto, está há quase 2 meses sem fumar. Com sua experiência até aqui, o que você diria a alguém que ainda não parou de fumar?

Como escrevi anteriormente, ainda sou novata na experiência, mas ela tem valido muito. Não posso dizer que seja simples, pois estaria mentindo. Mas não é impossível como eu sempre pensei. Nós nos fazemos fracos. Nós é que damos importância ao cigarro. Supervalorizamos algo que não nos dá sequer um único benefício.

Agora eu sei que o cigarro nunca me relaxou; ao contrário, hoje durmo muito melhor, tenho menos dores no corpo, sinto o verdadeiro sabor dos alimentos. Hoje posso enfrentar o vento na rua, sem reclamar que ele está me atrapalhando para acender o cigarro. Posso evitar de quase queimar o meu cabelo, que voou para a frente do rosto bem na hora em que acendi o isqueiro.

O Chico Anísio falou, numa entrevista, sobre um vizinho em seu prédio que tentava acender o cigarro e o vento não permitia que o isqueiro funcionasse. Enquanto o vizinho esbravejava contra o vento, ele (Chico) pensava: “o vento está sendo amigo dele e ele não percebe”.

Gostaria muito de poder convencer pessoas do meu convívio que ainda fumam a se libertarem desse vício. Mas como já disse, nada externo é mais forte do que nossa própria decisão. Aprendemos tudo na vida pelo AMOR ou pela DOR. Vamos escolher o AMOR. Não dói, não faz sofrer, não mata. É melhor ouvirmos agora, de nós mesmos: “pare” do que ouvir de um médico no futuro.

Obrigada, Gláucia, pela oportunidade de expor meus pontos de vista e minha experiência. Se fui conflitante com outras opiniões, quero apenas deixar claro que tudo o que escrevi foi baseado apenas no que eu penso e sinto; não generalizo nada, pois cada um de nós é um universo individual e eu respeito todos. Solange Simão.

Nós aqui do “Eu vou parar de fumar” é que agradecemos sua colaboração querida amiga ;)

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