Jovens sustentam a indústria do cigarro
Publicado por Glaucia Carvalho e arquivado em Entrevista, Notícias, tags: Entrevista, indústria tabagista, juventude livre do tabaco, Notícias
A cardiologista Jaqueline Scholz Issa apresenta seu livro”DEIXAR DE FUMAR FICOU MAIS FÁCIL”. O mérito deste simpático trabalho é tratar o assunto com respeito e objetividade. O livro informa o que é necessário saber, baseado em pesquisa e na longa prática da autora, cardiologista que coordena o Ambulatório de Tratamento do Tabagismo do Instituto do Coração da FMUSP Incor de São Paulo.Essencial para quem está flertando com a idéia de parar de fumar, ou já tentou e não conseguiu. Prefácio do Dr. Adib Jatene.
“O jovem mantém a indústria do tabaco e ela conhece a vulnerabilidade desse público”. É o que afirma a Dra. Jaqueline. Ela trouxe para o Brasil, em 1993, a iniciativa do Dia Mundial Sem Tabaco. Neste ano, o tema da campanha coordenada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) é “Juventude Livre do Tabaco”. O adolescente ainda é uma das principais vítimas do cigarro, segundo a médica, apesar de o Brasil ter evoluído no combate ao fumo. No último dia 02 de Junho ela falou à Folha sobre tabagismo.
FOLHA - Por que o jovem é o foco da campanha desse ano?
JAQUELINE SCHOLZ ISSA - Ele mantêm o negócio da indústria. Depois, quando vai envelhecendo, tende a parar de fumar. Ou porque morre, ou porque adoece, ou quando após 20 anos de fumo diversas conseqüências começam a aparecer. Então, uma nova safra de jovens é atingida para manter o mercado.
FOLHA - Como ele é fisgado?
JAQUELINE - As características da adolescência o deixam vulnerável. A indústria sabe disso. Não tem mais publicidade direta, mas tem publicidade no ponto de venda, misturado com docinho, balinha. O jovem não pensa no amanhã. Ele acha que tem total domínio e controle. Mas de seis meses a dois anos de uso, ele perde a autonomia.
FOLHA - Mas tivemos uma redução no consumo ao longo dos anos?
JAQUELINE - Na década de 80, o Censo mostrou que a prevalência entre adultos era de 30%. Recentemente, por pesquisas amostrais, sabemos que é de 20% no Brasil. Tínhamos uma parcela grande da população condescende com o tabagismo e que achava até bonito fumar.
FOLHA - Esse dado também vale para o jovem?
JAQUELINE - Os dados são controversos e, no Brasil, variam muito. No Sul, as meninas fumam mais que os meninos. No Estados do Nordeste, elas fumam menos. A idade em que o jovem começa a fumar caiu para 13 anos. Era entre 15 e 16 na década de 80. Essa geração é beneficiada por não ter propaganda. Hoje, o jovem que fuma mais é de nível sociocultural mais baixo. Se não tivesse sido feito nada, o consumo entre os jovens teria disparado.
FOLHA - E o que o Brasil fez para conter essa disparada?
JAQUELINE - O Brasil é um país que, apesar de ser grande produtor de tabaco, tem resultados objetivos na política antitabaco. A OMS preconizava três medidas básicas para reduzir o consumo no mundo. A primeira era criar ambientes livres de tabaco. A segunda, a restrição à propaganda. E a terceira, o aumento de preço. O Brasil restringiu a propaganda e umas cidades criaram o ambiente livre.
FOLHA - O que precisa melhorar?
JAQUELINE - Tem que ser criada uma política de aumento de preço e aumentar os investimentos em fiscalização a quem vende cigarro a menores.
FOLHA - E qual é a reação da indústria diante dessas medidas?
JAQUELINE - A indústria sabe o que faz em relação à população, e isso está provado em documentos que tiveram que ser abertos à Justiça americana após o escândalo da supernicotina em 1996. O FDA [órgão que regula o setor de saúde nos EUA] afirmou que a nicotina do tabaco era turbinada, com inclusão de amônia e até modificação genética da folha do fumo. Começaram a sair documentos que a indústria produzia em termos de mídia e de marketing. Descobri que eu estava nos arquivos da Philip Morris, em função das minhas pesquisas sobre o cigarro.
FOLHA - Os documentos revelam informações sobre o público jovem?
JAQUELINE - Um documento da J.R. Reynolds tratou os jovens como um número. Tem dados de em que idade a pessoa começa a fumar, se muda de marca ou não, com que idade começam a parar, quanto que o mercado precisa de reposição. Outro documento mostrou que a Philip Morris tinha um projeto fundamentado na imagem que o cigarro poderia ter para o adolescente, relacionando o cigarro ao ritual de passagem para uma vida adulta, além de toda uma mídia voltada a isso.
FOLHA - A mulher também é uma aposta da indústria?
JAQUELINE - Sim. Era um mercado a ser ganho. Mostrei em 1996 que as mulheres têm mais dificuldade para largar o cigarro, mas descobrimos que a indústria já sabia disso desde a década de 60.
FOLHA - Como o Dia Mundial Sem Tabaco foi trazido para o Brasil?
JAQUELINE - Na época, o Brasil tinha pessoas que lutavam contra o cigarro que não tinham espaço na mídia. A gente conseguiu, com o nome do InCor e com muito material passado pela OMS atingir a mídia. O volume de notícias produzidas contra o fumo cresceu muito. A ação da mídia foi fundamental.
FOLHA - Por que o último relatório da OMS foi tão catastrófico, mostrando que o cigarro pode matar 1 bilhão de pessoas no século 21?
JAQUELINE - Porque em outros países emergentes a questão é outra e está explodindo o tabagismo. Em populações muito maiores como China e Índia, quase 70% da população masculina é fumante.
Entrevista concedida à MÁRCIO PINHO
da Folha de S.Paulo no dia 02 de Junho de 2008













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Oi, Gláucia! Passando pra te desejar um feliz dia dos namorados!
Beijo!
Letícia.
Obrigada Letícia, desejo o mesmo a vc