Drauzio – Que resposta você dá a um fumante que lhe pergunta a extensão dos danos já causados pelo cigarro em seu organismo?
Daniel Deheinzelin – Essa pergunta é muito difícil de responder. Para ser exato, seria necessário repetir sistematicamente os testes de esforço para acompanhar a evolução do caso. Não existe um exame isolado que permita determinar a área lesada do pulmão.
Na verdade, o interesse das pessoas resume-se nisto: saber o tamanho do estrago, porque sempre há esperança de não ter havido lesão alguma apesar dos incontáveis cigarros fumados. Agindo assim, a decisão de largar de fumar pode ser adiada para quando os sintomas da doença forem mais evidentes.
Drauzio –Na cabeça dos fumantes, existe uma lógica que não é correta: “Fumo há 40 anos e o cigarro só danificou esse tanto. Para estragar o dobro, vai levar mais 40 anos. Daqui a 40 anos já estarei morto com certeza. Então, posso continuar fumando que não fará a menor diferença”.
Daniel Deheinzelin – Faz muita diferença. Há um momento em que o estrago cresce de forma exponencial, não é mais somatório. Esse é um problema sério para as pessoas com 50, 60 anos que fumam desde a juventude e procuram o médico porque já apresentaram a manifestação de alguma doença. Quando alertadas de que a tendência é piorar se continuarem fumando, retrucam: “Ah! Mas eu já fumei 30 anos e só agora senti alguma coisa. Por que tenho de parar de fumar se, por certo, não viverei mais 30 anos?” Sinto dizer que essas contas nunca estão corretas. Às vezes, basta um ano para o quadro deteriorar irremediavelmente