Existem diversas formas de preparar o tabaco para as diferentes maneiras de fumar. Narguilé, cachimbo, charuto, mascar fumo ou aspirar rapé; não importa como se utilize, o tabaco em qualquer de suas formas é mortal.

Essa é a conclusão que está no artigo do pneumologista e professor da Universidade de Brasília (UnB) Carlos Alberto Viegas, publicado na edição de dezembro do Jornal Brasileiro de Pneumologia.

Trago aqui alguns tópicos do estudo para esclarecer aos leitores como as supostas “ingênuas” formas de fumar, inalar ou mascar tabaco podem prejudicar seu organismo.

Narguilé

Narguilé Segundo Carlos Alberto, o narguilé, que teve sua origem provavelmente na Índia e hoje goza de muito prestígio na Península Arábica, Turquia, Bangladesh e Paquistão tem ganhado força entre jovens e superado até o uso de cigarros nos países ocidentais.

O monóxido de carbono e a nicotina estão presentes em maior percentual na fumaça do narguilé do que na do cigarro, inclusive acrescido também pela queima do carvão usado.

Outro dado que deve ser lembrado é que uma sessão de narguilé expõe o fumante a mais fumaça por um período mais longo do que ocorre quando se fuma cigarros.

Os fumantes de um cigarro habitualmente inalam entre 8 e 12 baforadas de fumaça com 40-75 mL cada, em 5-7 min, inalando de 0,5-0,6 L de fumaça por cigarro.

Por outro lado, uma sessão de narguilé habitualmente dura 20-80 min ou mais, durante a qual o fumante inala 50-200 baforadas num total de 0,5-1,0 L de fumaça.

Desta forma, o fumante de narguilé deve inalar, em uma sessão, a mesma quantidade de fumaça que um fumante de cigarros inalaria se consumisse 100 ou mais cigarros.

Salientamos que a água usada no narguilé absorve pouco da nicotina (cerca de 5%), fazendo com que os fumantes sejam expostos a quantidades suficientes para que a droga cause dependência.

Charutos

A grande maioria dos charutos contém mais nicotina do que a soma de muitos cigarros (1-2 mg de nicotina no cigarro e 100-400 mg de nicotina no charuto, com até 17 g de tabaco).

A fumaça do charuto é mais alcalina que a do cigarro facilitando sua dissolução na saliva e sua absorção pela mucosa oral. Isto faz com que a dose desejada de nicotina seja conseguida sem a necessidade de inalar a fumaça para os pulmões.

A fumaça de charuto tem uma classe de compostos altamente carcinogênicos (nitrosaminas, hidrocarbonetos e aminas aromáticas) em níveis significativamente mais altos que na fumaça de cigarro.

Os fumantes de charutos apresentam o risco de adquirirem câncer de pulmão até nove vezes maior do que não-fumantes.

A fumaça proveniente de charutos contribui mais para a poluição ambiental que a proveniente de cigarros.

Por conter maiores concentrações de toxinas e substâncias cancerígenas que a fumaça do cigarro, a fumaça de charuto contribui também para o aumento do risco de câncer de pulmão e das demais doenças relacionadas ao tabaco em não-fumantes (fumantes passivos).

Os fumantes de charuto que não inalam a fumaça expõem a cavidade oral e a língua a uma grande quantidade da mesma, aumentando o risco para câncer oral. Os constituintes do tabaco dissolvidos na saliva são deglutidos, causando aumento de câncer de esôfago nesta população.

Assim é que os fumantes de charutos apresentam um risco duas vezes maior de desenvolver câncer da cavidade oral (lábios, língua, boca e garganta), laringe e esôfago em comparação com não-fumantes.

Cachimbo

Os fumantes de cachimbo apresentam um maior risco de adoecer, com um aumento de 30% de risco para doença cardíaca e de risco para DPOC quase três vezes maior, além de existir uma relação causal entre fumar cachimbo e o aumento da mortalidade por câncer de pulmão, laringe, esôfago e orofaringe.

Em um estudo na Europa, observou-se que fumar charutos ou cachimbo possivelmente apresenta um efeito carcinogênico sobre os pulmões comparável ao de fumar cigarros.

Fumantes de cachimbo apresentam também um aumento da mortalidade por doenças não-cardiovasculares e por outras formas de câncer relacionadas ao uso do tabaco, tais como câncer de fígado, pâncreas, bexiga e colo-retal, bem como problemas periodontais, perda óssea e de dentes.

Rapé/ Mascar ou Inalar fumo/ Tabaco sem fumaça

Inalar fumo é uma forma de utilizar tabaco sem fumaça. Outras pessoas utilizam o fumo em rolo para mascar que é também uma forma de tabaco sem fumaça.

Todas as formas nasais (inalar) e orais (mascar) de uso do tabaco contêm agentes causadores de câncer, principalmente na boca e pâncreas, além de causarem outros problemas de saúde como doença periodontal, destruição de ossos e perdas de dentes, além de mau hálito e coloração indevida dos dentes e câncer de pulmão.

A indústria tabagista sugere que o uso destes produtos para mascar ou inalar favoreceria a cessação do tabagismo, o que até hoje não foi demonstrado.

Chamamos a atenção de que o uso de produtos do tabaco sem fumaça não é uma forma segura de substituir o tabagismo, cujos danos à saúde incluem câncer oral e pancreático.

Está demonstrado que homens que substituíram os cigarros por produtos de tabaco sem fumaça apresentam maiores índices de mortalidade por doenças cardíacas, acidente vascular e câncer da boca e de pulmão, comparados à ex-fumantes que pararam de usar todas as formas de tabaco.

Provavelmente o uso de tabaco sem a produção de fumaça seja menos letal que o uso de cigarros, mas não há dúvidas de que todas as formas de utilização de tabaco apresentam significativo aumento do risco de adoecimento e morte prematura entre seus usuários.

Fonte:
“Formas não habituais de uso do tabaco” - Autor: Carlos Alberto de Assis Viegas - Publicado em Dezembro de 2008 no Jornal Brasileiro de Pneumologia

Ilustração de Alex Dantas no Flickr

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